Faz hoje uma semana, e não escrevi nada ainda por vários motivos, por um lado ainda não estou refeito do susto que apanhamos todos, por outro lado ainda ninguém vislumbra as causas, a dimensão ou o desfecho de tudo isto, mas na passada 5ª feira, por volta das 18:45 por motivos ainda desconhecidos uns dos prédios do bairro onde moramos explodiu.

Vinha no comboio a caminho de casa, e é sempre como vemos nas histórias, recebemos um daqueles telefonemas, onde alguém do outro lado tenta acalmar a voz, mas não consegue obviamente o pânico!

A Patrícia ligou-me não imagino se 1/2 ou mesmo 3 minutos depois daquilo acontecer, ainda longe de refeita sequer da adrenalina pediu-me que ligasse com urgência para a minha Tia, porque o prédio dela (praticamente em frente ao nosso) tinha sofrido uma imensa explosão. Percebi que era sério, porque a voz dela tremia, mas estava mesmo longe de acreditar na dimensão do que tinha acontecido, lembro-me inclusivé de lhe ter perguntado: “mas explodiu como? tipo falta-lhe bocados?” do outro lado ouvi um “Sim” que me assustou, não porque disse-se muito, mas pelo tom de voz que ela emprego, garanto-vos que foi um daqueles momentos em que se nos gela a espinha e percebemos que a coisa é séria mesma.

O comboio leva o seu tempo… foi pegar no carro e zarpar para casa, ou assim achava eu! Pelo caminho devo ter ligado para a Patrícia umas 10x e por sugestão deixei o carro nas traseiras do nosso bairro e fui a pé! Transito cortado, filas e filas de pessoas, tudo com um ar assustadissimo e eu comecei mesmo a stressar, a tal ponto que nem me lembro de ter andado tanto e sempre de cabeça no ar a ver se via alguma coisa no referido prédio..

Estava tão distraído que só caí em mim, quando comecei a caminhar sobre vidros… vinha completamente a leste e quando ouvi o barulho dos mesmos debaixo dos meus pés, baixei a cabeça e ao meu lado direito tinha nada mais nada menos que uma Picassa com uma parede enfiada dentro… chiça que foi isto e donde é que isto veio… de onde estava ainda não dava para ver nada, mas espanto do lado esquerdo outros dois carros desfeitos… assim como que num rasgar de luz começo a reparar que à minha volta e daquela maré de gente estava tudo… partido!

Escrevo isto com uma semana e confesso que o faço de cabeça limpa, mas foi mesmo assim, de um minuto para o outro a voz da Patrícia fazia sentido e comecei a temer o pior… conhecemos muita gente ali, dividem o dia-a-dia connosco, a mercearia, a florista e até mesmo o cabeleireiro, o nosso prédio ficou sem porta e nem estamos em linha recta com o referido prédio.

Foram umas valentes horas (que não terminaram tão cedo) a tentar acudir e acalmar quem aparentemente ficou sem nada numa questão de segundos… a nossa casa é o nosso porto seguro, é lá que guardamos tudo, é lá que gastamos muito dinheiro para um conforto aparente, até que… às vezes acontece isto:

Explosão Monte-Belo Norte

Ninguém acreditaria naquelas horas que não tinha morrido ninguém, parecia impossível, mas é verdade, houve feridos claros, uns mais ligeiros que outros, mas acho que todos os que sobreviveram directamente ao acidente, do prédio ou fora dele se podem congratular com uma sucessão de eventos/coincidências felizes que lhes permitiu ficarem por cá mais uns tempos, não entro em detalhes, mas só posso dizer que as ‘sortes’ foram muitas, muita coisa de estava aqui e fui ali… e o aqui já lá não está e o ali salvou-me.

Passou uma semana…

os serviços funcionaram, apoiaram e têm sido incansáveis, mesmo quando tudo o resto é uma incerteza, posso dizê-lo porque passado o imediatismo dos media, a rumaria dos mirones, o apoio ainda continua às vitimas directas da explosão.

passado uma semana, a vista da minha casa ainda é praticamente a mesma, menos entulho, menos vidros partidos, mas sabendo que isto vai durar, quero acreditar que aquelas pessoas consigam dar rumo à sua vida tão depressa quanto possível.